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Andorinha

O que perguntar aos cuidadores no fim do turno (e o que não perguntar)

Cinco perguntas bem escolhidas contam mais do dia do que vinte ligações. Veja quais usar, como formular e quais deixar de fora.

Equipe Andorinha7 min de leitura

Mulher grava um áudio no celular, segurando o aparelho perto da boca.

Imagem de capa: Mulher grava um áudio no celular, segurando o aparelho perto da boca.

No fim de um turno de doze horas, os cuidadores têm alguns minutos para contar o dia. O que eles vão contar depende, em boa parte, do que você perguntar.

Pergunte "como foi?" e a resposta vai ser "tudo tranquilo". Pergunte vinte coisas e a resposta vai ser apressada, ou não vai vir. Entre os dois extremos existe um roteiro curto que funciona na maioria das casas, e é dele que trata este texto.

Muita família tenta resolver a falta de informação ligando mais. Não resolve. Cada ligação interrompe o trabalho e rende uma resposta genérica.

Um roteiro fixo faz o contrário. Os cuidadores sabem o que vai ser perguntado e, ao longo do dia, já vão reparando: comeu tudo, deixou o feijão, ficou animada depois da visita. No fim do turno, contam com calma. A família recebe sempre as mesmas informações, na mesma ordem, e começa a enxergar o dia a dia da pessoa cuidada.

Um bom roteiro tem três qualidades:

  • É curto. De quatro a sete perguntas.
  • É estável. Muda pouco, e só depois de conversa.
  • É concreto. Pergunta o que aconteceu, não opinião.

As cinco perguntas que cobrem quase todo dia

Estas cinco servem como ponto de partida para quase qualquer rotina:

  1. Comeu bem? Abre espaço para contar o que foi servido e quanto foi comido. "Almoçou tudo: arroz, feijão, frango e abobrinha. No lanche, mamão."
  2. Tomou os remédios? Pergunta de fato, não de julgamento. "Os das oito, todos, junto com o café."
  3. Como estava o humor? Uma das informações mais valiosas e mais difíceis de saber de longe. "Animada, conversou bastante e riu com a novela."
  4. Como foi o descanso? No turno do dia, se cochilou à tarde. No da noite, se dormiu, se levantou, se chamou alguém.
  5. Algo diferente? A pergunta mais importante da lista. É onde entram a visita, a ligação, o tropeço no corredor, a consulta de amanhã, a roupa já separada.

A última pergunta funciona como uma rede. Tudo o que você não pensou em perguntar cai nela.

Perguntas que dependem da rotina de cada casa

Além das cinco, vale acrescentar uma ou duas que façam sentido para a sua casa. Alguns exemplos:

  • Fez a caminhada? Para quem tem uma atividade combinada, como a volta no corredor com o andador.
  • Foi à fisioterapia? Nos dias em que tem sessão.
  • Teve visita? Para quem recebe gente com frequência e a família quer saber quem passou.
  • Usou o banheiro sem ajuda? Quando isso faz parte do que a família está acompanhando junto com a equipe de saúde.

Em rotinas de cuidado que não são de idosos, as perguntas mudam. Uma família que cuida de um adulto com autismo nível 3 pode querer saber como foi a comunicação, se houve momentos difíceis e o que ajudou. Escrevemos sobre isso em autismo nível 3 na vida adulta.

Resista à tentação de acrescentar muitas. Cada pergunta nova diminui a atenção que as outras recebem.

Como formular cada pergunta

Duas perguntas sobre o mesmo assunto podem render respostas muito diferentes. Algumas regras práticas:

  • Uma coisa por vez. "Comeu e tomou os remédios?" costuma virar "sim", e você não sabe a qual das duas o "sim" se refere.
  • Deixe espaço para contar. "Comeu bem?" rende uma descrição. "Comeu tudo? (sim ou não)" rende uma palavra.
  • Use a linguagem da casa. Se todo mundo chama de "a caminhada", pergunte "fez a caminhada?", e não "realizou atividade física?".
  • Pergunte sobre a pessoa cuidada, não sobre quem cuida. "Como ela estava?" em vez de "você conseguiu fazer tudo?". A segunda soa como cobrança.
  • Nada de pergunta com resposta embutida. "Ela estava triste de novo?" já sugere o que você espera ouvir.

O que não perguntar

Algumas perguntas atrapalham mais do que ajudam. Vale deixar de fora:

  • "Você deu o remédio mesmo?" O "mesmo" transforma uma pergunta em desconfiança. Se o remédio preocupa, a pergunta "tomou os remédios?" já cobre, todos os dias.
  • "A pressão está normal?" Os cuidadores podem medir e registrar o valor, se isso estiver combinado. Dizer o que é normal para a sua mãe é papel do médico, não deles, e não é justo colocar essa responsabilidade no colo de quem está cuidando.
  • "Por que você não...?" Se algo não foi feito, pergunte o que aconteceu. Quase sempre existe um motivo, e ele aparece quando a pergunta é aberta.
  • Perguntas sobre a vida pessoal de quem cuida. O relato é sobre o dia da pessoa cuidada. A relação pessoal com os cuidadores é outra conversa, em outro momento.
  • Tarefas disfarçadas de pergunta. "Você já organizou o armário?" não é relato, é pedido. Pedidos vão para as instruções, combinados com antecedência.
  • Dez perguntas de uma vez. Se o roteiro não cabe em três minutos de áudio, está longo demais.

Quando uma pergunta fica sem resposta

Vai acontecer. Às vezes os cuidadores respondem quatro perguntas e esquecem a quinta, ou não sabem o que dizer. Isso não é falha deles.

"Sem resposta" é uma informação honesta: naquele dia, aquilo não foi contado. Pode ser que a caminhada não tenha acontecido porque choveu, ou que tenha acontecido e quem estava de turno só não lembrou de falar. Se importa, pergunte com calma no dia seguinte. Se não importa, deixe passar.

O que não funciona é preencher a lacuna com suposição. "Não falou da caminhada, então não fez" é uma conclusão que quem estava lá não deu. Um bom registro separa o que foi dito do que não foi.

Um roteiro na prática

Na casa da dona Marta, 82 anos, a família usa estas perguntas no turno do dia, que a Cida e a Valéria fazem em dias alternados:

  • Comeu bem?
  • Tomou os remédios?
  • Como estava o humor?
  • Fez a caminhada?
  • Algo diferente?

À noite, com a Rosângela, o roteiro troca a caminhada por "Como foi a noite?". O relato do dia chega por volta das 18h45 e o da noite às 6h45. Os três filhos leem no horário que podem, e ninguém precisa ligar para perguntar. Detalhamos a rotina da noite em como acompanhar o turno da noite.

A Andorinha foi desenhada em cima dessa ideia: a família escolhe as perguntas, elas chegam no WhatsApp de quem cuida no fim do turno, e a resposta, em áudio ou texto, volta organizada debaixo de cada pergunta, com "sem resposta" onde nada foi dito. Como isso funciona do lado de quem cuida está em para cuidadores.

Revise o roteiro de tempos em tempos

Uma vez por mês, olhe as respostas das últimas semanas e pergunte à família:

  • Alguma pergunta sempre vem igual e não acrescenta nada?
  • Alguma informação importante sempre aparece em "algo diferente" e merece pergunta própria?
  • A rotina mudou (fisioterapia nova, remédio novo, gente nova na escala)?

E pergunte aos cuidadores também. Eles sabem quais perguntas são fáceis de responder e quais são confusas.

Um roteiro bem ajustado também vira material para o médico. Na próxima consulta, em vez de lembrar de cabeça, você leva o que foi contado dia a dia. Veja como preparar uma consulta médica.

Se quiser montar o seu roteiro e receber as respostas já organizadas, a Andorinha faz isso pelo WhatsApp dos cuidadores. O caminho completo, do fim do turno ao relato, está em como funciona.

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